quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Fanatismo - Florbela Espanca

Fanatismo - Florbela Espanca


Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !

Não vejo nada assim enlouquecida ...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa ..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !

E, olhos postos em ti, digo de rastros :
"Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! ..."

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Lança fortuita (Bernardo Almeida)

Lança fortuita (Bernardo Almeida)

A vida acontece sem que tenhamos tempo para decidir
Sobre o que parece, o que é e o que perece
Apenas vislumbramos um foco de exatidão
Um calafrio pela não vivência, pela incerteza
Devemos fazer dos próximos segundos
O desafio sagrado de nossas existências
A vontade não-linear do risco inevitavelmente estabelecido
O compromisso assumido, a verdade renegada
A geração do modelo reprovado, a superação do possivelmente aceito
O estalo canhoto da fortuita intenção imprevisível
A espera que nunca alcança, a vela que jamais apaga
Como o espetáculo que nunca se finda ou o barco que jamais naufraga

Poesia retirada do livro Crimes Noturnos (2006)

Acalanto- Ada Ciocci

Acalanto- Ada Ciocci

Vai amado. Busca por onde quiseres, com quem quiseres, como quiseres, o prazer. Até mesmo, aquele prazer que um dia alguém apelidou de amor. E, se por acaso te cansares e, do compromisso que um dia nos uniu te lembrares, se desejares, volta. Serei a que conforta. Não saberás da dor, da saudade, das lágrimas sentidas que tua ausência causou.

Impressionista - Adélia Prado

Impressionista


Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

A esmola de Dulce - Augusto dos Anjos

A esmola de Dulce

Ao Alfredo A.

E todo o dia eu vou como um perdido
De dor, por entre a dolorosa estrada,
Pedir a Dulce, a minha bem amada,
A esmola dum carinho apetecido.

E ela fita-me, o olhar enlanguescido,
E eu balbucio trêmula balada:
- Senhora, dai-me u’a esmola - e estertorada
A minha voz soluça num gemido.

Morre-me a voz, e eu gemo o último harpejo,
Estendo à Dulce a mão, a fé perdida,
E dos lábios de Dulce cai um beijo.

Depois, como este beijo me consola!
Bendita seja a Dulce! A minha vida
Estava unicamente nessa esmola.

domingo, 19 de agosto de 2007

Documento do absurdo

Além da poesia
A ausência de tudo sobrevive
Graças ao absurdo
Da existência

Robert Leroy
 
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